19/11/2020 às 15h40min - Atualizada em 19/11/2020 às 15h40min

Venezuelanos roubam petróleo e fazem sua própria gasolina por conta de escassez

Venezuelanos roubam petróleo e fazem sua própria gasolina por conta de escassez

Mariela Nava e Luc Cohen, da Reuters
O surto do novo coronavírus causou o maior choque na demanda de petróleo desde a crise financeira de 2008 Foto: Christian Hartmann / Reuters

Desesperados por combustível após meses de escassez, os venezuelanos começaram a roubar petróleo de campos ociosos da estatal Petroleos de Venezuela e destilar gasolina caseira, segundo dois trabalhadores da PDVSA e dezenas de pessoas familiarizadas com a prática.

A quantidade de petróleo roubado é uma pequena fração da produção da Venezuela. Mas a atividade é testemunho da crise da PDVSA, que não consegue mais abastecer a população do país com combustível.

 

A outrora formidável rede de refino de 1,3 milhão de barris por dia (bpd) da Venezuela entrou em colapso, as instalações de petróleo e refino têm pouca segurança ou manutenção e a empresa é incapaz de reter trabalhadores qualificados porque os valores dos salários derreteram.

A empresa atingiu uma nova baixa este ano. Sob pressão das sanções dos EUA (parte do esforço do governo norte-americano para destituir o presidente Nicolas Maduro), a produção de petróleo da Venezuela caiu para apenas 397 mil bpd em setembro, ante 1,2 milhão de bpd antes das sanções serem impostas em janeiro de 2019 e o menor nível desde os anos 1930.

As sanções têm como alvo a importação de gasolina, forçando os venezuelanos a esperar em filas intermináveis do lado de fora dos postos de gasolina. Muitos cidadãos consideram isso uma indignidade amarga para um produtor membro da OPEP, que tem, segundo algumas medidas, as maiores reservas de petróleo do mundo.

A cadeia de abastecimento da chamada “gasolina artesanal” começa em campos de petróleo como La Concepción, no estado de Zulia, que produzia mais de 12 mil bpd de petróleo leve de alto valor há 15 anos.

O campo ficou inativo por dois anos enquanto a PDVSA, que já foi uma das dez maiores empresas de petróleo do mundo em produção de petróleo bruto e uma grande exportadora, virou uma sombra do que já foi.

Atividades exigentes

Pequenos tubos agora se projetam de buracos feitos em dutos construídos para transportar o petróleo de La Concepción para tanques de armazenamento e instalações de exportação. Os tubos levam o petróleo para refinarias rudimentares em quintais de uma cidade próxima, de acordo com Danny, um trabalhador da PDVSA que pediu para ser identificado só pelo primeiro nome.

De acordo com ele, os funcionários da PDVSA, que ganham apenas alguns dólares norte-americanos por mês, aceitam pequenos subornos para fechar os olhos ao furto. As forças de segurança mal se preocupam em proteger as instalações inativas, um padrão replicado em toda a Venezuela, onde o roubo de equipamentos de campos de petróleo se tornou comum durante o colapso econômico do país que já dura seis anos.

“É óbvio que as pessoas estão roubando o petróleo, que é a única fonte de riqueza que temos”, contou Danny.

A PDVSA não respondeu a um pedido de entrevista. Um ex-executivo da empresa estimou que menos de 1.000 bpd de petróleo são roubados, menos de 1% da produção total.

A PDVSA passou meses tentando consertar refinarias que ficaram em mau estado por falta de fundos para manutenção e para comprar peças de reposição. Os esforços têm sido afetados por derramamentos de óleo, vazamentos de gás e incêndios que feriram os trabalhadores.

A empresa conseguiu reiniciar a produção de gasolina em suas refinarias Cardon, de 310 mil bpd, e El Palito, de 146 mil bpd, em junho e julho, respectivamente, mas ambas sofreram várias interrupções não planejadas desde então, resultando em produção de combustível intermitente.

“Não podemos realizar atividades tão exigentes se estamos com fome”, disse Freddy Camacho, um engenheiro que trabalhou no esforço para reiniciar a refinaria de Cardon e conserta geladeiras para obter dinheiro extra.

Maduro culpa as sanções pela falta de gasolina, mas diz que a Venezuela deve aumentar a produção de combustível.


'El Flaco'

Até este ano, os venezuelanos não precisavam roubar petróleo para fabricar seu próprio combustível.

Atividades semelhantes são comuns há muito tempo na Nigéria, onde dezenas de refinarias ilegais processam petróleo roubado de oleodutos. Em outros produtores de petróleo da América Latina, como México e Brasil, é comum que gangues de criminosos roubem combustível de oleodutos que saem das refinarias, em vez de levar a matéria-prima.

Na Venezuela, o combustível abundante foi durante décadas essencialmente gratuito graças a subsídios. Mas essa situação era uma lembrança distante no início de agosto, quando Jaime, um produtor de leite de Zulia, precisava enviar queijo para o mercado da capital do estado, Maracaibo, mas não conseguia encontrar gasolina para dirigir até lá.

Um vizinho sugeriu que ele chamasse um homem conhecido como “El Flaco” (ou “O Magro”) na cidade vizinha de La Concepción. Jaime não perguntou a “El Flaco” de onde vinha a gasolina, mas estava ciente do crescente roubo de petróleo bruto e do refino improvisado ocorrendo em Zulia.

“Eles tiram isso de poços de petróleo aqui em La Concepción. Fervem e passam por tubos de cobre e depois vendem o líquido que escorre”, contou Jaime à Reuters com a condição de que seu sobrenome não fosse publicado.

Danny, bem como outro funcionário da PDVSA e várias pessoas cujos parentes estão envolvidos na atividade, descreveram o processo à reportagem.

No campo, os ladrões perfuram os dutos e, segurando um maçarico embaixo do cano, aquecem o petróleo bruto para que ele flua em tubos menores inseridos no orifício perfurado. Vídeos das refinarias clandestinas circularam nas redes sociais. Em um deles, um pequeno incêndio é visto sob duas latas pretas mantidas em um barril enferrujado, com uma série de pequenos tubos transportando líquido claro para baldes. Um tubo maior, enterrado no subsolo, transporta esse líquido para latas brancas.

Jorge Leon, um engenheiro especializado em segurança industrial para a indústria do petróleo, disse que o fluido que as refinarias improvisadas estavam extraindo era quimicamente volátil e não continha os aditivos normalmente adicionados à gasolina para garantir a segurança dos motores dos automóveis.

“Não só pode danificar o motor, mas também pode causar explosões”, disse Leon.

A gasolina artesanal que Jaime comprou de “El Flaco” não se revelou uma solução viável.

“O caminhão rodou bem por alguns dias, mas três dias depois, o motor começou a engasgar”, disse Jaime. “Agora não liga.”

Reportagem de Mariela Nava em Maracaibo, Venezuela e Luc Cohen em Nova York; Reportagem adicional de Mircely Guanipa em Maracay, Venezuela; Edição de Simon Webb e Marguerita Choy.

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